''É preciso lutar pelo amor''
Confira a entrevista
da socióloga e sexóloga Maria Helena Matarazzo.
É especializada em terapia individual e de casais com mestrado
em educação sexual. Ex-consultora da Unesco, realiza palestras
por todo o país. Autora dos best sellers: Amar é preciso;
Nós dois; Encontros, desencontros e reencontros, Gangorras do
amor e Namorantes. Ganhou o prêmio Mulher 2000 por seu pioneirismo
na área de sexualidade humana.
- ISTOÉ - Por que homens e mulheres
procuram a internet para trair seus parceiros, em vez de buscarem as
situações na vida real?
Maria Helena: Só a partir de 2001 surgiram dados de pesquisas
sobre a traição virtual, no livro Infidelity on the internet,
de Marlene Maheu e Rona Subotnik. As pessoas navegam por diversão,
curiosidade ou para compensar a solidão. Qualquer que seja a
razão, o fato é que muitas estão sedentas por companhia
e excitação sexual. O espaço cibernético
está aberto 24 horas por dia e a idealização romântica
faz parte da comunicação por meio do computador. Só
ali é possível encontrar o amor correspondido, o amante
perfeito, o confidente de todas as horas. Ninguém tem esse tipo
de disponibilidade para o outro na vida real. Segundo os pesquisadores,
as relações virtuais, apesar da ausência do contato
físico, podem ser tão cativantes que chegam a ameaçar
relacionamentos estáveis. Isso porque compartilhar experiências
e fantasias sexuais nesse tipo de espaço pode provocar uma sensação
de intimidade maior do que uma relação sexual com o parceiro
de sempre. Além disso, o segredo que cerca o romance e o sexo
virtual dão um tesão infernal, impulsionado pelo perigo
de ser descoberto ou ser pego em flagrante. Os medos típicos
também desaparecem, porque é possível mascarar
a própria identidade.
- ISTOÉ - O que é traição
e o que é fantasia na internet?
Maria Helena: Para os que acreditam ter encontrado o verdadeiro
amor navegando na internet, é importante lembrar que um beijo
virtual será sempre diferente de um beijo real, que movimenta
dezenas de músculos e é considerado um termômetro
da paixão. Essas escapadas podem ser interpretadas como traição
ou como uma masturbação sem conseqüências,
dependendo da conversa registrada pelos e-mails, da fase em que está
o casamento ou até da maneira como o casal lida com as fantasias.
Esse tipo de traição só deve ser considerado nocivo
quando é confundido com a realidade, vira obsessão ou
prejudica alguém.
- ISTOÉ - Ao mesmo tempo que
as pessoas ainda desfrutam do efêmero "ficar" - a relação
relâmpago que teve seu auge nos anos 90 -, a sra. afirma que os
homens e mulheres desejam cada vez mais as relações duradouras.
Como chegou a essa conclusão e o que explicaria essa mudança?
Maria Helena: Os especialistas acham que - sem estatísticas
ou pesquisas, mas por dedução - existe uma tendência
apontando para relações mais duradouras. Não deixo
de levar em conta a moda do "ficar", mas acredito que essa
é uma das armadilhas montadas pela revolução sexual.
Os jovens se encontram, vão direto aos finalmentes e queimam
todas as etapas. Com isso não aprendem a namorar. Essa febre
de relações carnais implicou atitudes de fuga, de não
se envolver, não começar nada, de dar valor ao passageiro.
No entanto, o sexo recreativo ignora o fato de que o ato de amor pressupõe
carinho e confiança, o que leva tempo para se criar. Certamente
mais do que
uma noite. Mas, apesar de todas as dificuldades, muitos ainda desejam
a sensação de criar raízes e de pertencer a alguém,
o que só uma relação comprometida pode dar.
- ISTOÉ - Esse movimento detectado
pela sra. não iria na contramão de uma sociedade cada
vez mais descartável, de pessoas autocentradas que só
visam ao seu próprio bem estar?
Maria Helena: Alguns são extremamente egoístas
e individualistas. Depois de terem se machucado uma vez, não
conseguem confiar novamente, muito menos se entregarem. De fato, dá
medo se envolver com alguém. Por isso muitos colocam o coração
dentro de uma caixa-preta e lacram. Sentem medo de amar e pensam "é
melhor dar pouco para perder pouco". Isso cria um vazio e onde
há esse vazio há dor emocional e existencial. Com medo,
sem medo ou apesar do medo, o melhor mesmo é tentar. Apesar de
tudo, as pessoas querem sair da fase do sexo acelerado, casual, para
mergulhar no velho e conhecido amor.
§ ISTOÉ - O que a sra. tem
a dizer sobre os jovens que ao final das festas ou de uma balada fazem
a competição de quem beijou mais?
Maria Helena: Acho que isso é muito comum nessa época
da vida, na juventude. Nessa fase eles estão experimentando.
Junto disso vem a competição, ficam se vigiando mutuamente.
Enquanto os homens medem sua virilidade pelo número de beijos
que roubaram, as mulheres se preocupam com sua reputação,
com o que os outros vão falar. Muitas se freiam, se policiam.
Os homens estão na fase do quanto mais melhor, pensam em quantidade,
não em qualidade. E também não pensam no day after.
Mais provável é que com o processo de amadurecimento sexual
e emocional esse tipo de atitude seja superada.
- ISTOÉ - Alguns dizem que as
mulheres (jovens) fogem mais das relações duradouras do
que os homens. Isso estaria acontecendo?
Maria Helena: Eu discordo. Podem estar todos numa fase de matar
a curiosidade, tanto os meninos quanto as meninas. As mulheres amadurecem
mais rápido do que os homens. Para elas, a concretização
do sonho, da fantasia sexual primária é encontrar o parceiro,
formar o vínculo amoroso. Pela minha experiência, a mulher
quer o vínculo. Por outro lado, na medida em que os homens dissociam
sexo do amor, algumas mulheres começam a copiar esse comportamento.
Elas fazem uma troca de papéis e não querem nada além
daquela balada. Mas não diria que é possível generalizar.
- ISTOÉ - Fugir de relações
duradouras é uma forma de esconder a própria insegurança?
Sempre foi assim?
Maria Helena: Acho que sempre foi assim, porque, na medida em que
se vence a insegurança, adquire-se confiança. Só
então se é capaz de amar. Antigamente as mulheres eram
totalmente passivas, mantidas em um estado de infantilização
sexual. Não era para elas crescerem.
Não havia fuga das relações duradouras porque as
mulheres estavam predestinadas a serem esposas e mães. Agora
é exatamente o inverso: há um amadurecimento sexual precoce,
principalmente por parte das meninas, das quais se espera que sejam
sexy pelo menos dos cinco aos 55 anos. Isso é um desrespeito
ao processo normal de crescimento, como se queimassem etapas. E a influência
da mídia nesse aspecto é forte. Por outro lado, com a
revolução sexual as mulheres ficaram mais donas de si,
correm mais riscos e se tornam capazes de fazer escolhas livres e conscientes.
- ISTOÉ - Quais os erros mais
freqüentes que as partes de um casal cometem?
Maria Helena: São muitos. Mas o mais comum é que a
maioria das pessoas não sabe que uma paixão dura de 18
a 30 meses. É estatística. Ficam assustadas e o fim da
paixão, em geral, provoca a morte da relação. Ou
uma metamorfose. O ponto final no deslumbramento abre espaço
para que o amor renasça com outra cara. Quando duas pessoas se
encontram, tudo parece possível. O sonho vira realidade e a realidade
vira sonho. Esse pessoal muito jovem que está só surfando
nas emoções não tem tempo de construir uma história
em comum. No início os dois falam de suas vidas horas sem fim.
É como se cada um redescobrisse sua identidade à medida
que se revela para o outro. Segue-se um período de encantamento,
em que ambos ficam cegos pela fome de serem felizes. É a sensação
do "eu mereço". Porém não existe visto
de permanência por tempo ilimitado no paraíso. Depois que
os amantes voltam a colocar seus pés no chão surge a possibilidade
da formação do vínculo amoroso. A importância
desse vínculo depende da quantidade e da qualidade das trocas
que os parceiros estabeleceram.
- ISTOÉ - Quais as suas sugestões
para alguém que deseja transformar a paixão em amor?
Maria Helena: Os casais precisam criar uma história comum.
Ambos são responsáveis por escrevê-la.
- ISTOÉ - A sociedade está
menos hipócrita. As relações também ficaram
mais verdadeiras?
Maria Helena: Antes da revolução sexual, os contatos
eram mais simples. A verdade é que a situação não
assustava tanto como hoje.
O entusiasmo sem medo dava maiores possibilidades de encontro, permitia
que as pessoas se aproximassem com uma facilidade que parece ter desaparecido.
Hoje todo mundo começa uma relação com medo.
Para as mulheres só havia dois tipos de homem: aqueles com quem
dormiam, seus maridos, e os com quem não dormiam, todos os outros.
A revolução sexual deixou as pessoas confusas com o contraste
entre a facilidade de desfrutar um momento de intimidade com alguém
e a dificuldade de preservar a intimidade fora e além da cama.
Já se fala atualmente que a revolução sexual foi
uma encruzilhada de ilusões perdidas. Aquela ânsia de liberdade
a qualquer preço está dando lugar a uma aproximação
mais lenta, porque sabemos que a sexualidade separada do amor cria suas
próprias armadilhas.
- ISTOÉ - Qual a diferença
entre o amor romântico e a expectativa de relações
mais duradouras?
Maria Helena: O prazo de validade do amor romântico é
proporcional ao tempo de duração das facilidades. Dinheiro
em abundância, entretenimento constante e viagens à beira-mar
servem de muletas. Quando começam a capengar, fica cada vez mais
evidente que um não está contente com o outro. Como esse
vínculo não foi construído em base sólida
de amizade e solidariedade, a sentença é: salve-se quem
puder. A expectativa de relações mais duradouras é
o oposto disso.
- ISTOÉ - Por que é preciso
coragem para amar?
Maria Helena: Freud disse que nunca nos sentimos tão desprotegidos
como quando amamos. Isso porque o amor é desordenado, apaixonado,
assustador, controlador e, ao mesmo tempo, apetitoso. Para aumentar
a coragem é preciso entender que o medo nunca vai desaparecer
enquanto estivermos crescendo e continuarmos a ampliar nossa capacidade
de amor e disposição de correr riscos. A única
maneira de enfrentar o medo é fazendo. Não se deve deixar
seu amor morrer de medo ou de susto. É preciso lutar por ele.
Se o amor merecer sobreviver, é claro.
- ISTOÉ - Quais são as
principais causas da "evaporação" do desejo?
Maria Helena: Sem desejo, o sexo torna-se mecânico. Na mídia,
o corpo exposto, ou parte dele, como o bumbum e os seios siliconados,
provoca um intenso nível de excitação e uma sensação
de abundância, de oferta sem limites. São fatores que fazem
com que as pessoas se sintam cada vez menos realizadas sexualmente e
se queixem, cada vez mais, de solidão. Até porque isso
não faz parte da realidade delas.
- ISTOÉ - Existe algum limite
para uma relação sexual?
Maria Helena: O que está em questão hoje são
as diferenças entre o homem e a mulher. A disposição
para o sexo na mulher depende muito do que acontece durante o seu dia
ou em sua vida. O homem vê o sexo mais como um relaxante, um modo
de se livrar das tensões. Para a mulher o orgasmo é um
bônus, um algo mais, uma medida da proximidade a dois. Para o
homem o orgasmo é compulsório. Para muitos deles a relação
sexual que vale a pena é a escaldante. Para a mulher, no entanto,
nem todo ato sexual precisa terminar em explosões de êxtase.
Elas querem ser abraçadas e acariciadas. Seu desejo não
é um vendaval de luxúria. Para muitas, a coisa mais importante
é a intimidade e não o quanto e como estão sendo
devoradas.
Fonte: Revista ISTOÉ - 25 de junho
de 2003 - Entrevista com Maria Helena Matarazzo por Celina Côrtes.
Extraído do site: http://www.terra.com.br/istoe
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